Outubro 17, 2013

Outubro 17, 2013
retalhos da piauí: sobre novelas e crônicas

RUBEM BRAGA

“Humildade”, o sentimento definidor da arte de Bandeira e Braga, deriva do latim humus. A palavra significa “chão”. Humus também está na origem de “homem” e “humanidade” – todo esse povo que anda na rua, mas raramente vê o sublime que se oculta ao rés do chão onde vivemos e somos enterrados.


JOÃO EMANUEL CARNEIRO E ANTONIO PRATA

“O Antonio tem muito talento e é um sujeito adorável”, disse Carneiro. Em Avenida Brasil, Prata escreveu diálogos das cenas das quais participava um personagem que era casado com três mulheres. “Ele escolheu palavras dos diálogos que esclareciam direitinho quem era o personagem”, disse Carneiro. O trabalho dos colaboradores é bem limitado: quem decide o sentido da trama e o destino dos personagens é o autor. Em homenagem a Prata, Carneiro encaixou na novela a frase “Fulano é meio intelectual, meio de esquerda”.

AGUINALDO SILVA

Ele gostaria que os cronistas fossem “mais cronistas e menos articulistas”. Acha que a novela também precisa mudar. “Esse negócio de 180 capítulos é uma especificidade brasileira que vai acabar cansando”, disse. “Precisamos fazer coisas curtas, sérias e mais dramáticas. O problema aqui é que todo mundo quer ser engraçadinho, dos autores aos atores, e a vida não é isso, ou não é só isso.” Deu como exemplo de inovação os seriados americanos de tevê a cabo como Família Soprano e Mad Men. Dias depois, Mario Vargas Llosa falou que The Wire é um modelo de boa dramaturgia televisiva.

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-82/questoes-cronicas-agudas/no-epicentroda-barafunda

Outubro 17, 2013
da série pequenos prazeres: a ironia da piauí

Era um final de tarde e cerca de trinta pessoas davam conta da rotina diária do acampamento. Um rapaz magro, sardento e articulado, apresentou-se como Bruno Cintra, mais conhecido co-moBruno Ruivo. Um dos coordenadores do Ocupa, ele segurava o livro Constituição Federal para Concursos e teclava em um iPad, cedido aos manifestantes por um estudante da Pontifícia Universidade Católica, morador do Leblon. Cintra me mostrou o histórico dos dias de ocupação, organizado como numa tabela Excel, e depois contou como nasceu o movimento. Segundo ele, no final de junho, “o Pepe, o Maicon e o Zeca” estavam em um bar e assistiam a um pronunciamento de Dilma Rousseff em rede nacional. “Uma hora ela mencionou a baderna em relação aos protestos. Aí, eles falaram: ‘Baderna? Vamos dar uma lição neles’”, contou. No mesmo dia, divulgaram pela Mídia Ninja e pelas redes sociais que se instalariam na porta do governador. O maior dos atos organizados por eles reuniu 4 mil pessoas na rua de Cabral. Dez dias depois, a polícia desmontou as tendas na marra e prendeu um dos que protestavam.

Em menos de um mês, eles estavam de volta. Dessa vez, sem previsão de ir embora. Um rapaz com o capuz preto do moletom enterrado na cabeça interrompeu a conversa. “Me dá aí o iPad, meu”, disse. “Combinei de encontrar uma mina, libera aí para eu ver se ela mandou mensagem no meu Facebook.” A contragosto, Ruivo lhe passou o tablet. Uma dupla de jornalistas italianos fotografava tudo. Outro repórter, um afegão com uma filmadora a tiracolo, aproximou-se e Ruivo se dirigiu a ele em inglês fluente. Cintra me disse ser estudante universitário e morar na Zona Sul com o irmão, que “tinha trabalho, todo certinho”.

Passaram pelo acampamento estudantes, desempregados, indolentes, trabalhadores, curiosos, mendigos, adictos, sem-teto, moradores dos vizinhos Morro do Vidigal e da Rocinha, rebeldes com e sem causa, neo-hippies, militantes de partidos e os black blocs. No auge da ocupação, a população flutuante chegava a quarenta pessoas de dia, reduzia-se à metade durante a madrugada e dobrava nos fins de semana. Dividiam-se em grupos: segurança, mídia e mobilização, limpeza, estratégia política e materiais. Cintra era da estratégia política. Um rapaz, chamado de Islã, era o chefe da segurança. Usava jaqueta de couro preta mesmo nos dias mais quentes e ficava sentado horas a fio em uma cadeira de praia.

Eles haviam feito um acordo com os seguranças do Posto 12, em frente à praia, para, por 50 reais por dia, usar o banheiro e o chuveiro à vontade. Ao público em geral, custa 2,80 por pessoa a cada vez. As baterias dos celulares eram carregadas em portarias de prédios da orla por zeladores, que se ofereciam para a tarefa. Na hora das refeições, contavam com doações de vizinhos ou cada um se virava para comer o que desse.

O dia passava na modorra. Conversavam entre si, falavam para as câmeras da mídia alternativa sobre qualquer coisa o tempo todo, pediam dinheiro para motoristas, iam até o mar, voltavam com olhos vermelhos, rindo muito, entoavam gritos de guerra contra Cabral, dançavam como numa festinha ao ar livre. Boa parte do tempo era usada para discutir uma maneira de engrossar algum protesto ou cultivar o desprezo por inimigos comuns: a imprensa – as Organizações Globo, em particular –, o governo e o capitalismo. A maioria fazia questão de parecer enfastiada com a presença dos jornalistas. Como uma Greta Garbo voluntariosa, a black bloc conhecida por Emma, que estampou a capa da revista Veja, dispensava pedidos de entrevistas. “Não tenho mais nada para falar.” Por três vezes, perguntaram-me se eu era da “mídia burguesa”.

Luiza Dreyer tem 23 anos, estudou no tradicional Colégio Santo Inácio, mora com a mãe no bairro do Flamengo e trancou a faculdade na PUC. Estava acampada desde o primeiro dia e, uma vez por semana, voltava para casa para pegar roupas limpas ou “lavar o cabelo direito”. Ela estendia camisas e shorts masculinos em um varal improvisado, preso a duas árvores no canteiro da avenida. “Olha o tanto de coisa que conquistamos. O Cabral voltou atrás em várias decisões porque fomos lá e brigamos. Isso mostra nossa força. Agora ele vai ter que dizer cadê o Amarildo!”, disse, referindo-se ao sumiço do ajudante de pedreiro, que se suspeitava ter sido morto por policiais na Rocinha. Perguntei se pensavam que o movimento poderia se institucionalizar e, eventualmente, virar um partido. “Não estamos pensando nisso agora. O objetivo hoje é efetuar as mudanças e tirá-lo do governo.” A moça, que também era assídua da Marcha das Vadias, disse que a mãe ficava preocupada com sua ausência, mas que “agora entendia a importância de participar dos protestos”.

Um carro da Globosat ficou preso num extenso engarrafamento na Delfim Moreira. “É a Globo, é a Globo, vamos lá!” Uns saíram correndo, outros pegaram balões a gás recheados com tinta, um black bloc tirou um spray laranja de dentro de uma barraca. “Foda-se a Globo!”, ouvia-se. Minutos depois, voltaram com ar satisfeito. Contaram ter pichado todo o carro e disseram que o motorista havia ficado com medo. “Falamos para ele que não era nada pessoal”, explicou-me um rapaz magro de barba por fazer.

No final da tarde, apareceu Ernesto Fuentes Brito, guru dos acampados, que usava uma boina a la Sierra Maestra. Filho do historiador Elinor Mendes Brito – um dos setenta presos políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, sequestrado pela Vanguarda Popular Revolucionária, em 1970 –, ele tem 36 anos, nasceu no Chile, onde o pai ficou exilado e é professor de biologia. Estava desempregado havia três meses. “Fui demitido por minhas ideias, mas também porque eu queria uma vida mais libertária”, contou. Desde então, havia passado a organizar atos e manifestações pela cidade contra o governo Cabral. Ele contou manter um apartamento na Zona Norte, cujas despesas de manutenção eram pagas com suas economias. “Eu tenho uma reserva”, disse-me.
Sentado na calçada, Fuentes apontou um black bloc que rebolava agachando-se até o chão ao som da Gaiola das Popozudas em companhia de outros cinco manifestantes. “Veja aquele garoto.É negro, pobre, encontrou um lugar para ser libertário e viver como quer”, disse, professoral. “Ele não é morador de rua. Ele escolheu morar na rua, é diferente. Isso é um ideal, é muito importante.” O black bloc começou a gritar “Vai se foder” para um carro. “Peralá, isso não!”, Fuentes lhe chamou a atenção de longe. “Foi mal, foi mal”, respondeu o rapaz.

Por alguns minutos, o professor passou a discorrer sobre a luta de classes e como a imprensa, os bancos e os governos têm uma agenda que jamais beneficiará a maioria. De um utilitário preto, um playboy segurando uma latinha de cerveja buzinou e acenou para os manifestantes. “É isso aí! Fora, Cabral!” Com um sorriso contido, Fuentes comentou: “Isso é bem Bertoldo.” Fiz cara de interrogação. “Bertoldo Brecht. É a coisa do motorista e do patrão. Quando bebe, fica legal e justo, é capaz de oferecer a filha para o motorista. Mas quando baixa o teor do álcool, o abismo social volta com força”, disse em referência à peça O Senhor Puntilla e Seu Criado Matti. “Quando a elite bebe, vem aqui, abraça a gente… Depois, quer distância”, concluiu.

Um ônibus se ateve no engarrafamento e um passageiro passou através da janela uma faixa em que se lia “Fora, SérgioCabral e Eduardo Paes. Respeitem o povo!”, o que provocou uma ovação dos manifestantes. O painel foi instalado entre as barracas. Em meia hora, doze carros pararam e deram alguma contribuição em dinheiro para o grupo.

No começo da noite, mais de cinquenta pessoas circulavam pelo local. Aproximou-se um garoto de 20 anos, usando jeans, tênis e carregando uma mochila. Chamava-se Bruno, era estudante de geografia da puc e estava cansado da “vida burguesa”. Durante vinte minutos, entoou uma cantilena de problemas com o pai rico, que não aceitava que ele fizesse geografia, que sua vida era vazia e superficial. Fuentes ouviu com atenção e, ao final, o aconselhou a voltar para a faculdade. Logo em seguida, um homem negro lhe trouxe um copo de café quente. Era funcionário da obra do metrô, a 500 metros dali, e dormia todos os dias no acampamento. “Ele mora em Nova Iguaçu. Ganha 100 reais por dia e gasta 27 de passagem, não vale a pena voltar para casa. Antes de a gente estar aqui, ele dormia sob uma marquise. Agora, está aqui com a gente”, explicou Fuentes.

Luiza Dreyer apareceu com a expressão de felicidade. Havia disponibilizado sua conta bancária pessoal para doações e tinham feito um depósito de 700 reais. De quem? “Não sei, colocaram! Ótimo, vamos fazer vários investimentos em arquitetura aqui, comprar mais barracas e botijões de gás”, comentou. Todos os acampados com quem conversei durante os quatro dias que estive no Ocupa Cabral negaram receber pagamentos de grupos ou partidos políticos. “Falar que recebemos de alguém é uma maneira baixa de desmerecer nossa ação”, comentou Fuentes.

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-85/vultos-da-republica/na-boca-do-povo

Outubro 6, 2013

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Outubro 5, 2013

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Outubro 3, 2013

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Outubro 1, 2013

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Maio 4, 2013
"Tradicionalmente, cada forma básica de liberalismo aparece necessariamente como o oposto da outra: via de regra, os defensores liberais multiculturalistas da tolerância combatem o liberalismo econômico e tentam proteger os mais vulneráveis das forças desregradas do mercado, enquanto os liberais de mercado defendem os valores familiares conservadores e assim por diante. O que temos, portanto, é o duplo paradoxo do direitista tradicional, que apoia a economia de mercado e ao mesmo tempo combate com ferocidade a cultura e os costumes que ela engendra, e seu contraponto, o esquerdista multiculturalista, que combate o mercado (cada vez menos, é verdade, como observa Michéa) e ao mesmo tempo fortalece com entusiasmo a ideologia que ele engendra. (Há meio século, a exceção sintomática era a inigualável Ayn Rand, que defendia o liberalismo de mercado e o egoísmo individualista radical, destituído de todas as formas tradicionais de moralidade relativas aos valores familiares e ao sacrifício pelo bem comum.) Hoje, entretanto, parece que entramos numa nova era, em que ambos os aspectos podem se combinar: personagens como Bill Gates posam de radicais do mercado e filantropos multiculturalistas.
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Slavoj Žižek, Vivendo no fim dos tempos

Maio 3, 2013
Primal Scream - Trainspotting by Trainspotting Soundtrack on Grooveshark

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